MARCOS GUEDES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
“Cá, a loucura transcende o jogo”, diz Fernando Diniz, no vídeo produzido para anunciá-lo uma vez que técnico do Corinthians. “Meu coração já pulsa no ritmo da Leal”, afirma, claramente lendo um texto previamente elaborado.
Enquanto as palavras são ditas, aparecem imagens dos torcedores alvinegros, também chamados de “grupo de loucos”. Ao término do vídeo, surge um Diniz natural, já sem as amarras do roteiro, livrando-se do microfone e brincando: “Agora, vai estrear a loucura. Vai, Corinthians!”.
Criticado pelo comportamento explosivo à beirada do campo, com olhos esbugalhados e xingamentos aos jogadores, o treinador de 52 anos espera que isso seja uma porta de ingresso para o coração da torcida.
Sua proposta de jogo é também habitualmente tratada uma vez que insana, quixotesca, porém o componente tático -um futebol de aproximação e troca de passes que parece favorável para as principais peças do atual elenco preto e branco- tem sido muito menos explorado do que o “sangue no olho” cobrado pela arquibancada.
“Vivo o futebol de uma maneira intensa”, afirmou, em sua cerimônia de apresentação, na última terça-feira (7). “As pessoas acham que a secção tática tem uma prevalência para mim. Nunca vai ter. Não existe domínio tático que consiga superar a falta de ânimo, de vontade.”
Enquanto Diniz falava isso, torcedores protestavam na porta do meio de treinamento, pedindo vontade.
O time estava em uma sequência de nove partidas sem vitória -que levaram à destituição do técnico Dorival Júnior-, e os jogadores passaram a ter seus carros parados, com cobranças agressivas: “Você está achando que somos otários?”.
Questionado sobre a revelação, o técnico a chamou de “supernormal”. Ele foi meia-atacante do Corinthians de 1997 a 1998 e chegou a viver uma emboscada na rodovia dos Imigrantes, na volta de uma guia para o Santos em Santos, com pedras atiradas no ônibus do clube.
“Os jogadores precisam aprender a jogar no Corinthians. O torcedor que está aí é aquele que vai ao estádio e ganha o jogo com sua presença”, disse, apresentando uma solução simples para os atletas incomodados: “O que acalma isso aí é lucrar jogo”.
Foi o que eles fizeram dois dias depois. Em sua estreia na edição 2026 da Despensa Libertadores, a equipe derrotou o Platense por 2 a 0, em Vicente López, na Argentina, e interrompeu um período de quase dois meses sem vitória.
O resultado representou um conforto, é verdade, mas não foi esse o triunfo exigido nos protestos. “Se perder no domingo vocês estão f…”, bradaram os torcedores, referindo-se ao clássico contra o Palmeiras, no estádio de Itaquera, em São Paulo, pelo Campeonato Brasílio.
“Eu sei a prestígio que tem um Derby”, afirmou Diniz. “É o maior clássico para o Corinthians, um jogo tradicional. É um jogo que a gente vai encarar uma vez que um jogo tem que ser encarado quando jogam Corinthians e Palmeiras.”
O embate será na zona leste paulistana, aonde chegou o menino Fernando, aos nove meses. Nascido em Patos de Minas, o mineiro fincou raízes perto da sede alvinegra, que fica no Parque São Jorge. Quando Dorival foi exonerado e chegou a mensagem do presidente Osmar Stabile, Diniz estava pronto para ir ao clube e assinar seu contrato.
“Moro na zona leste, você sabe o tanto de corinthiano que tem cá. Esse torcedor importa muito, o torcedor de estádio…”, afirmou, minimizando a ruidosa parcela da torcida que reprovou sua contratação em redes sociais e enquetes online.
“Todo o mundo no futebol achou que isto fosse intercorrer, pensa que eu tenho uma combinação com o Corinthians. Eu também acho que combino com isto cá, pela minha maneira inquieta, pela coragem de fazer as coisas. Tem tudo para dar notório”, apostou.
Para isso, Diniz terá de encanar o que chamou de “loucura” de maneira produtiva. Seus trabalhos nos últimos anos tiveram um sobranceiro muito sobranceiro -a conquista da Libertadores pelo Fluminense, em 2023- e baixos muito baixos -a passagem pela seleção brasileira foi breve e péssima.
Na estreia pelo Corinthians, as câmeras e os microfones buscaram o técnico em momento de pausa para hidratação dos atletas. Ele foi veemente nas orientações, porém se conteve em uma aparente ânsia para usar palavrões com o lateral recta Matheuzinho.
Ainda que os olhos tenham se arregalado, o grito foi contido. E o time venceu.
“Eu estive perto de convencionar com o Corinthians umas quatro ou cinco vezes, mas agradeço a Deus por não ter oferecido notório. Hoje, eu estou mais pronto para enfrentar levante repto. Acredito que os 17 anos da minha curso tenham sido uma preparação para chegar a um clube deste tamanho.”
