BRUNO RIBEIRO E CAROLINA LINHARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O proclamação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de que visitará o ex-presidente Jair Bolsonaro na próxima semana foi o desfecho de uma sequência de incidentes que alimentou discussões acaloradas entre bolsonaristas.
Tarcísio voltou a reafirmar, pela segunda vez em duas semanas, que não quer disputar a Presidência no lugar de Flávio Bolsonaro (PL), indicado pelo ex-presidente para o incumbência. Ele tinha sofrido uma série de críticas nos últimos dias por faltar a uma visitante que tinha sido marcada para quinta (22). O governador decidiu desmarcar o encontro, citando compromissos em São Paulo, mas, em sua agenda solene, constava somente o item “despachos internos”. À tarde, ele promoveu uma troca no secretariado, mudando a Vivenda Social estadual.
A decisão de não visitar Bolsonaro na data marcarda foi analisada por aliados porquê uma tentativa de impor um limite aos filhos do ex-presidente.
Um facilitar de Tarcísio disse que o governador vinha acumulando desgastes com Flávio e atribuindo a auxiliares do senador a geração de boatos relacionados a uma eventual campanha presidencial —que ele nega— e até rumores de que planeja deixar a política.
Ao longo desta quinta (22), enquanto bolsonaristas criticavam Tarcísio por cancelar o encontro com o ex-presidente na prisão, segmento do grupo agiu para acalmar os ânimos.
“Tarcísio de Freitas, é um coligado importante, possante e leal. Conheço-o pessoalmente e afirmo, sem indeterminação: trata-se de um varão de muito, comprometido com o projeto vernáculo liderado por Jair Bolsonaro”, escreveu em rede social Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica de Bolsonaro que tem auxiliado Flávio a buscar aliados no mercado financeiro.
Porquê mostrou a Folha, Tarcísio cancelou a visitante em seguida se irritar com a enunciação do rebento do ex-presidente de que o encontro seria para o governador ouvir que sua candidatura presidencial estava “descartada”. O senador se lançou ao Planalto em dezembro com suporte do pai.
O encontro com Bolsonaro foi remarcado para a próxima quinta-feira (29), e Tarcísio escreveu em rede social que é “grato e leal” ao ex-mandatário.
Entre apoiadores mais radicais do ex-presidente, a atitude de Tarcísio de retardar a visitante e passar o dia no Palácio dos Bandeirantes foi vista porquê fastio, o que acabou explicitando a tensão entre o clã Bolsonaro e o governador.
Nesse grupo, também ganhou força a leitura de que Tarcísio, ao contrário do que diz publicamente, trabalha não pela reeleição e, sim para disputar o Palácio do Planalto. A avaliação é que, por isso, ele teria evitado a conversa com o ex-presidente, que poderia cobrar um compromisso mais evidente com a candidatura de Flávio.
Interlocutores do governador negam essa versão. Eles afirmam que o cancelamento da visitante não afeta o projecto de concorrer à reeleição e que Tarcísio não faz nenhum movimento para viabilizar uma candidatura presidencial.
Um coligado próximo disse que o governador e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro conversaram por telefone ainda na noite de quarta-feira (21), quando Tarcísio afirmou ter uma questão de agenda e que seria preciso mudar a data da visitante.
Quem defende o nome de Flávio afirma que Tarcísio enviou o recado de que não aceitará pressão e quis evitar o constrangimento de ser cobrado pelo ex-presidente a fazer campanha pelo rebento. Porquê resultado, vem sendo classificado porquê orgulhoso.
Deputados bolsonaristas, porém, receberam o recado de segurar críticas ao governador, seguindo a orientação de Flávio de buscar a união dos nomes da direita.
A disputa na direita se intensificou nos últimos dias entre defensores de que Flávio seja o presidenciável do campo, porquê indicou Bolsonaro, e aqueles que mantêm a preferência pela candidatura presidencial de Tarcísio. O incidente da transferência do ex-presidente para a Papudinha, na semana passada, e a fala em torno de uma eventual prisão domiciliar impulsionaram a dupla Tarcísio-Michelle em detrimento dos filhos de Bolsonaro.
Em vídeo publicado na quarta (21), o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) falou sobre uma suposta tentativa de derrubar a candidatura do irmão.
“A campanha do Flávio está a todo vapor e não será derrubada. Se isso, por ventura, chegasse a se verificar, qual o sentimento que você teria no seu coração? Que pessoas trabalharam para chantagear Bolsonaro e, numa negociata espúria, inescrupulosa, suja e vil, tiveram sucesso”, disse.
Aliados e auxiliares de Tarcísio, por outro lado, minimizam o gesto de distanciamento do governador, que, desde a eleição em 2022, tem mantido uma posição dúbia em relação ao bolsonarismo e buscado certa independência.
Eles não escondem que houve um recado por segmento de Tarcísio, mas afirmam que ele somente buscou reagir a ataques que tem recebido e mostrar que não vai concordar ser tutelado ou pressionado, que tem voz própria e espaço porquê governador de São Paulo.
Um interlocutor do governador diz que ele conseguiu transmitir que não se trata de uma divergência em relação a Bolsonaro, por quem disse ter solidariedade e gratidão, e sim de uma ação para evitar uma emboscada dos filhos do ex-presidente.
Ainda de concordância com esses aliados, a atitude de Tarcísio foi correta e não deve gerar prejuízo eleitoral, enquanto o entorno de Flávio avalia que o governador pode, sim, perder votos ao se distanciar do ex-presidente.
