Racismo no futebol: quando a “tolerância zero” só aparece depois do vexame
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A FIFA adora esse vocabulário de manual corporativo: “tolerância zero”, “política reforçada”, “sanções exemplares”. No papel, parece o último bastião da cultura contra o racismo. Na prática, a sensação é de que o problema só vira prioridade quando dá dor de cabeça jurídica, risco de patrocínio e prenúncio de crise institucional. O racismo no futebol não é novidade, não brotou agora por geração espontânea – ele é vetusto, recorrente e publicado por todo mundo que frequenta estádio. Mas, curiosamente, só vira “intolerável” quando a conta chega em forma de multa milionária e possibilidade de exclusão em competição internacional.

O caso da agressão sofrida por Vinícius Jr, envolvendo Gianluca Prestianni, do Benfica, coloca em teste a promessa da FIFA de tolerância zero ao racismo. Desta vez, a entidade deixou simples que as punições não se limitam ao jogador culpado do ato discriminatório: o clube também entra no níveo e pode tolerar sanções esportivas e institucionais, caso fique caracterizada lapso na prevenção, na conduta ou na resposta ao incidente.

Para o jogador, o pacote de punições previsto é pesado. A Percentagem Disciplinar da FIFA trabalha com suspensão mínima de dez partidas, multa pessoal que pode variar de 500 milénio a 1 milhão de euros e a obrigatoriedade de participação em programas de ensino antidiscriminatória. Em caso de agravantes — uma vez que reincidência, intenção clara de ofender, falta de contrição ou comportamento reptante posteriormente o incidente — a suspensão pode ser ampliada para um período muito superior a 12 jogos, com impacto direto na curso e na exposição do desportista.

Já para o Benfica, as consequências podem ir além do constrangimento institucional. O clube corre o risco de tolerar multas elevadas, sanções esportivas e até penalidades que afetam sua participação em competições, caso fique comprovado que houve preterição, tolerância interna ou tentativa de minimizar o ocorrido. Em cenários mais graves, a FIFA pode impor perda de mando de campo, jogos com portões fechados e outras medidas que atingem diretamente o caixa e o desempenho esportivo do clube.

O recado que a entidade tenta dar é que o combate ao racismo não será mais tratado uma vez que problema individual de um jogador “que se excedeu”, mas uma vez que uma responsabilidade compartilhada. Se o clube não cria envolvente, regras e punições internas claras, passa a ser corresponsável. E, nesse padrão, o prejuízo deixa de ser exclusivamente moral: vira esportivo, financeiro e de imagem.

Agora, resta saber se a FIFA vai sustentar esse exposição quando a decisão final for anunciada. Se satisfazer o que promete, o incidente entra para a lista dos raros momentos em que o sistema resolveu punir de verdade. Se serenar, o futebol seguirá repetindo a velha encenação de indignação que dura até a próxima rodada.

Quem é Gianluca Prestianni?

Até o incidente de racismo contra Vinícius Júnior, Gianluca Prestianni era um nome praticamente invisível fora dos círculos de observadores de base. Aos 20 anos, o atacante prateado revelado pelo Vélez Sarsfield chegou à Europa encurralado de rótulos uma vez que “promessa” e “prodígio”, mas, na prática, ainda não conseguiu se firmar em lugar nenhum. Contratado pelo Benfica em 2024 por tapume de 9 milhões de euros, ele oscila entre o time principal e o Benfica B, sem protagonismo, sem números expressivos e sem qualquer marca relevante no futebol profissional até cá.

No currículo, há convocações para seleções de base da Argentina e uma estreia discreta pela seleção principal em amistoso contra Angola, em 2025 — um daqueles jogos que passam quase despercebidos no calendário internacional. Fora isso, não há títulos, não há atuações memoráveis, não há momentos que o coloquem no radar do grande público. O que o projetou ao noticiário mundial não foi um golaço, uma decisão em final ou uma temporada de asseveração, mas um ato de racismo que pode lhe render uma punição pesada e, ironicamente, aligeirar o risco de ele voltar ao anonimato de onde nunca chegou a transpor de verdade no futebol de cume nível.