De acordo com dados da Receita Federal, o Brasil dispõe atualmente de mais de 45 mil estabelecimentos ligados a atividades veterinárias, incluindo clínicas, hospitais e consultórios. Com base em pesquisas do CNAE 7500-1/00, relativo ao mesmo setor, cerca de 8 mil clínicas e hospitais foram abertos em 2025, e mais de 2 mil foram fechados no mesmo ano. Os índices despertam uma questão – como equilibrar o papel de médico veterinário gestor e evitar falências?
Do ponto de vista técnico, este profissional sai da universidade municiado com conhecimento para comandar várias especialidades da área clínica. Contudo, ao abrir seu consultório, depara-se com as complexidades da gestão. “Durante décadas, nossa formação universitária privilegiou, corretamente, as competências técnicas e científicas. Entretanto, pouco nos preparou para administrar pessoas, dinheiro, processos, conflitos e estratégias empresariais”, salienta Marco Antônio Gioso, assessor e consultor para clínicas e pet shops.
Para o especialista, é imperativo que este gestor coloque na rotina de aprendizados inteligência financeira, liderança, gestão por processos, marketing estratégico e a capacidade de interpretar dados e utilizar tecnologia, incluindo inteligência artificial.
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Rotina entre administração e casos críticos
No dia a dia, o médico veterinário à frente do negócio lida com situações extremadas – dos casos clinicamente críticos aos números de atendimentos em queda – e tem ainda o desafio de manter a excelência médica, a fim de estabelecer uma relação de confiança e segurança com os tutores.
“É necessário criar uma rotina gerencial, desenvolver lideranças e transferir gradualmente decisões operacionais para pessoas capacitadas. O proprietário deve dedicar uma parcela crescente de sua energia à estratégia, à inovação, à formação de pessoas, à análise do mercado e ao futuro da organização”, completa Gioso.
Com o Hospital Veterinário São Francisco, em operação em Conselheiro Lafayete, Minas Gerais, o médico veterinário Jean Ciarallo aprendeu com os próprios erros para harmonizar liderança e medicina veterinária. O profissional assume que no início da administração falhou ao centralizar processos, tentando resolver tudo sozinho, e ao negligenciar custos, perdendo insumos por validade ou não precificando corretamente procedimentos complexos que consomem materiais não contabilizados.
Gestores precisam de equilíbrio emocional e saúde financeira
“Em um hospital veterinário, lidamos diariamente com emergências, tutores emocionalmente fragilizados e animais em situações críticas. Manter a excelência clínica e um atendimento acolhedor, sem perder de vista o controle de custos, a precificação justa, a escala de plantões e a sustentabilidade financeira da instituição, é um equilíbrio delicado”, diz Ciarallo.
O médico veterinário também avalia os episódios de burnout na equipe veterinária como problemáticas que se somam à rotina e exigem atenção de uma liderança humanizada.
Ainda neste cenário, duas preocupações são compartilhadas por quase todos gestores, já que elas movem a saúde do empreendimento: a precificação e o faturamento. É neste ponto que devem ser elencados os custos diretos e indiretos, tributos, remuneração dos profissionais, estrutura instalada, depreciação dos equipamentos, riscos operacionais e margem necessária para reinvestimento. Na outra ponta, compreender educação financeira é primordial.
“Faturamento não é lucro. Essa confusão ainda compromete muitas clínicas. É preciso conhecer a estrutura de custos e separar despesas fixas, variáveis, custos assistenciais, investimentos e retiradas dos sócios”, finaliza Gioso.
Indicadores para saúde financeira
Gioso lista indicadores que devem ser acompanhados regularmente para evitar perdas e melhorar a rentabilidade da clínica
– DRE gerencial: demonstra se a operação efetivamente gera resultado
– Margem de contribuição: revela quanto cada serviço contribui para pagar os custos fixos e produzir lucro
– Ponto de equilíbrio: indica o faturamento mínimo necessário para cobrir os custos
– Fluxo de caixa projetado: antecipa dificuldades financeiras antes que elas aconteçam
– Custo de pessoal sobre a receita: permite avaliar a estrutura de colaboradores em relação à capacidade produtiva
– Ticket médio e receita por serviço: ajudam a compreender o comportamento econômico da operação
– Taxa de ocupação e produtividade: especialmente relevantes para consultórios, centros cirúrgicos, equipamentos diagnósticos e internação
– Inadimplência, glosas e perdas de estoque: identificam receitas não realizadas e desperdícios
