Brasil, respira fundo comigo porque isso cá não é só perrengue de viagem. É provação místico com trilha sonora dramática e roteiro digno de minissérie europeia. Eu, Kátia Flávia, ouvi Rodrigo Alvarez falar e fiquei em silêncio respeitoso por três segundos. Depois anotei tudo, porque isso cá é história.
Rodrigo estava na França gravando um documentário sobre Maria Madalena, vivendo dias de recolhimento, estudo e enfrentamento místico pesado. Ele falava de solidão, de batalhas internas, de silêncio em quartinho simbólica, daquelas experiências que atravessam a espírito. E aí, no meio dessa atmosfera quase sagrada, veio o choque do mundo real. Roubaram mais da metade do equipamento da equipe.
Não foi rapinagem modesto, não. Foi devastação logística. Levaram praticamente tudo o que sustentava as transmissões ao vivo. Resultado. Improviso forçado, falhas técnicas e um pedido sincero de compreensão ao público. Rodrigo explicou que a viagem tinha sido difícil a ponto de quase desistir. Ele disse com todas as letras que pensou em largar tudo. Faltou ânimo. Faltou força. Faltou pavimento depois do roubo.
O assalto aconteceu perto da região de Marselha, durante a subida até uma gruta onde há uma capela ligada à tradição de Maria Madalena. Por razão do peso, a equipe decidiu levar exclusivamente secção do equipamento. Estratégia racional, penalidade emocional. Quando voltaram, o sege estava vazio. Tudo tinha sumido.
E aí começa o capítulo mais revoltante desse roteiro. Segmento dos equipamentos tinha rastreamento por GPS. Eles descobriram que o material estava indo para o aeroporto. Rodrigo pediu ajuda à polícia francesa. Esperou. Insistiu. Foi enrolado. Quando finalmente resolveram agir, veio a resposta fria. Já está dentro do avião, não dá mais para fazer zero.
O avião, meus amores, tinha pousado na Argélia, em Argel. Sim. Segmento do equipamento saiu da França. Outra secção permaneceu em Marselha, identificada por um fone ainda rastreável, indicando que foi vendida ali mesmo. O documentário místico virou, sem aviso, uma rota internacional de contrabando tecnológico.
Porquê se não bastasse o traumatismo, veio o duelo prático. Muitos desses equipamentos são especializados, difíceis de encontrar, impossíveis de comprar no meio de uma viagem. A equipe precisou repor o que conseguiu, do jeito que deu, para não interromper o projeto. Tudo isso enquanto Rodrigo seguia falando de fé, resistência e jornada interno ao vivo, com a calma verosímil dentro do caos verosímil.
Mesmo comovido, ele continuou. Pediu comentários, checou se a transmissão estava chegando, avisou que responderia perguntas, explicou que os membros do clube teriam conversa depois. Profissional até quando o universo testa no modo hard.
Resumo final da Kátia, com nó na gasganete e radar ligado. Isso não foi só um roubo. Foi um teste brutal de persistência, fé e desapego material. Um documentário sobre espiritualidade atravessado por polícia lenta, avião fechado, equipamento perdido e vontade quase esgotada. E ainda assim, ele seguiu. Porque tem jornada que não acaba quando tudo dá inexacto. Às vezes, ela começa exatamente ali.
