Prefeito barra campeonato de farmar aura em parque: ‘Sou hétero’
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Via O Orbe – O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), proibiu um campeonato de “Farmar Aura” que estava previsto para esta sexta-feira no Parque das Águas, um dos cartões postais da capital de Mato Grosso. O bolsonarista afirmou nesta quinta-feira, em entrevista a jornalistas, que não há “interesse público” para o evento e o espaço visa “edificar a família”.

— Acredito que, no horizonte, as pessoas que participam dessa farra vão sentir muita vergonha. Não houve também solicitação de alvará para que fosse realizado (no parque) — disse o prefeito, que admitiu não saber o que é “farmar aura”: — Não tenho teoria. Eu sou hétero.

Gíria popular da geração Z, farmar aura é fazer uma pose criativa, executar um meme ou uma dança, por exemplo. Ou seja, um tanto que possa te evidenciar para o seu público nas redes, e agora também no mundo real. No novo evento, as partidas são de um contra um, e quem fizer um tanto que o público vibre mais, ganha aquela disputa.

Nas redes sociais, o prefeito completou:

“Farmar aura? Temos 67 motivos para negar esta atividade em superfície pública, alguns destes principais motivos são de saúde mental coletiva, falta de interesse público, muito estar social e preservação do bom uso do espaço público”.

Qual a origem da sentença “farmar aura”?

Por todo quina do país, eventos com nomes semelhantes têm provocado algazarra seguindo um roteiro parecido. A garotada se aglomera para deslindar quem, enfim, consegue “farmar aura” melhor.

A gíria nasceu nos videogames. Em jogos uma vez que “Minecraft” e “League of legends”, o verbo em língua inglesa “to farm” (que designa “cultivar” e, nas telas, é associado a ações repetitivas para reunir recursos, itens, pontos) ganhou uma versão aclimatada ao português: “farmar”. Mais tarde, juntou-se a “aura”, substantivo que, no linguajar das redes, assumiu a conotação de “carisma”, “astral” ou “capacidade de impressionar”. Dessa combinação, fermentaram subexpressões. “Sigma” é a pessoa bem-sucedida em “farmar aura”. “Beta”, por outro lado, define quem não anda de convénio com o “estilo” da vez.

Mais do que uma invencionice linguística, a gíria traduz um modo de vida de quem nasceu no país de duas décadas para cá. É uma vez que se um jogo não terminasse depois de um console de videogame ser desligado. Fora das telas, em vez de reunir moedas, poderes ou pontos para proceder de fases, o objetivo passa a ser outro: cultivar uma imagem capaz de render prestígio, surpresa e reconhecimento — e, para isso, vale tudo, uma vez que usar o tênis da voga ou executar uma coreografia arrojada.

Acadêmicos apontam que não é casual o uso da vocábulo “aura”. Popularizado pelo filósofo Walter Benjamin (1892-1940) para denominar o caráter uno e irrepetível de uma obra de arte — basta pensar na “Mona Lisa”, cuja originalidade persiste apesar das várias reproduções mundo afora —, o concepção adquire, agora, um sentido quase inverso. Em vez de nomear uma qualidade sensacional, passa a indicar um ativo que pode ser cultivado deliberadamente.