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MATEUS ARAÚJO
UOL/FOLHAPRESS

Declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Setentrião) —e um provável rompimento com o grupo— reacenderam o debate em relação à capacidade militar da Europa. Profissional avalia que, hoje, nenhum país europeu conseguiria enfrentar os EUA de forma isolada e que o continente, apesar dos recursos financeiros, ficaria sem poder bélico inopino sem o esteio americano.

Trump minimizou a reação europeia a ameaças dos EUA contra a Groenlândia. Na última quarta-feira, o presidente americano afirmou que Rússia e China “não têm nenhum susto da Otan sem os EUA” e questionou se o conjunto estaria ao lado de Washington em um cenário de urgência real.

Presidente disse ter forçado aumento dos gastos militares europeus. Segundo Trump, países da Otan passaram a investir até 5% do PIB em resguardo depois sua pressão, contra os 2% anteriores. Ele afirmou que, antes disso, “a maioria não pagava suas contas” e que os EUA arcavam sozinhos com os custos.

Europa teria capacidade financeira, mas não poder militar inopino sem a Otan. Segundo o professor Kai Lehmann, do curso de relações internacionais da USP, o continente até poderia se tornar uma potência militar, mas isso exigiria investimentos elevados e tempo, um pouco incompatível com a urgência do cenário atual.

A Europa uma vez que um todo teria capacidade financeira de se tornar uma potência militar, mas, no momento, isso exigiria muito investimento. E isso, obviamente, seria um processo de longo prazo, quando a Europa não tem muito tempo.Kai Lehmann, professor de relações internacionais da USP.

Exclusivamente França e Reino Uno são potências nucleares na Europa. Para Lehmann, outros países europeus, uma vez que Alemanha, Polônia, Itália e Espanha, teriam potencial econômico, mas não capacidade militar equivalente no limitado prazo.

Alemanha nunca buscou se declarar uma vez que potência militar desde a Segunda Guerra. De combinação com o professor, embora tenha capacidade financeira, o país não construiu uma tradição de protagonismo militar e qualquer mudança nesse sentido seria um processo longo e politicamente multíplice.

Nenhum país europeu conseguiria enfrentar militarmente os EUA de forma isolada. Lehmann afirma que “não tem nenhum país que por si só poderia enfrentar os Estados Unidos militarmente”. “Mesmo a China não tem Forças Armadas tão avançadas uma vez que as dos Estados Unidos”, frisa.

Superioridade militar não garante vitória em guerras, diz professor. Entre os exemplos citados por ele para relativizar o peso do poder bélico estão as derrotas dos EUA no Afeganistão e as dificuldades da Rússia na Ucrânia, além da guião da União Soviética no Afeganistão nos anos 1980.

Declarações de Trump preocupam, mas não são surpresa. Segundo Lehmann, o republicano já havia deixado simples, ainda no primeiro procuração, sua insatisfação com a Otan e a cobrança para que os europeus assumissem mais gastos com resguardo. “Ele cobrou isso durante o primeiro procuração assim uma vez que Barack Obama e George W. Bush”, lembra, citando ex-presidentes norte-americanos.

Para o professor, há uma diferença entre exigir mais responsabilidade dos aliados e ameaçar o porvir da federação. “Uma coisa é cobrar dos europeus mais responsabilidade; outra é expor: ‘Olha, eu vou deixar a Otan, e a Otan vai basicamente falhar’”. Segundo ele, os europeus deveriam ter se pronto para esse cenário, mas não o fizeram e agora “estão correndo detrás”.

Principal temor europeu é a imprevisibilidade dos EUA. Para o professor, Trump costuma usar ameaças uma vez que instrumento de pressão e muda de posição com frequência, o que dificulta o planejamento estratégico europeu no limitado e no longo prazo.