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ANA LUIZA ALBUQUERQUE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Ainda que a teia de relações de Daniel Vorcaro, do Banco Master, envolva em sua maioria nomes do centrão e da direita, inclusive o candidato Flávio Bolsonaro, é a esquerda o grupo político mais associado ao caso na visão do eleitorado, como mostrou pesquisa Datafolha publicada em 18 de setembro.

Analistas políticos consultados pela Folha listam alguns motivos que poderiam explicar essa leitura: a fragmentação das notícias, o histórico de corrupção em governos do PT nas últimas décadas, a dispersão no campo da direita, o efeito negativo que um escândalo do tipo costuma ter para quem ocupa a Presidência, a proximidade do governo Lula (PT) com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, alçado ao centro do caso, e uma falta de clareza por parte da imprensa ao apresentar as informações ao leitor.

“Num caso de corrupção mais intrincado como o Master, boa parte dos leitores lê manchetes, fragmentos, ou recebe um recorte da notícia por rede social”, afirma o cientista político Jorge Chaloub, professor na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Celso Rocha de Barros, colunista da Folha e doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra), diz que as denúncias apareceram em conta-gotas ao longo do ano. “Talvez tenha sido difícil para o público formar um quadro geral na cabeça.”

Para ele, a imprensa poderia ter sido mais clara na apresentação do padrão que aponta para uma predominância de políticos de direita nas relações de Vorcaro. “O PT, quando teve o petrolão, foi corretamente massacrado. Isso não vai acontecer dessa vez [em relação à direita]”, afirma. “Teve um petrolão de direita e ninguém ficou sabendo.”

Candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro é formalmente investigado no inquérito do Supremo que envolve o filme “Dark Horse”, que recebeu ao menos R$ 65 milhões de Vorcaro. Ele nega irregularidades nas transações.

No centrão, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) era próximo de Vorcaro e foi alvo de operação da Polícia Federal, que suspeita que ele teria recebido uma mesada do Master para atuar a favor do banco no Congresso. Nogueira disse que a ação foi uma tentativa de manchar a sua honra.

No campo da esquerda, a PF chegou a Jaques Wagner (PT-BA), que deixou a liderança do governo Lula no Senado após ter sido alvo de uma operação motivada por suspeitas de que ele teria recebido vantagens indevidas do Master, o que ele nega.

Para o cientista político Fernando Schüler, professor do Insper, as revelações que envolvem o PT da Bahia no escândalo explicam, em parte, a razão para o eleitorado associar mais a esquerda ao caso. “Só isso aí já dá para a esquerda um latifúndio nesse negócio todo”, diz. “Acho difícil fazer uma ‘tabelinha’ de esquerda e direita, dá uma maçaroca de gente envolvida nesse negócio [do Master].”

Schüler afirma que a ligação de Flávio Bolsonaro com o “Dark Horse” é um fator importante, mas com um peso menor. “É uma investigação ainda em curso.”

Já as suspeitas que envolvem líderes do centrão, como Ciro Nogueira, são menos impactantes, afirma o professor. Isso porque o grupo não é associado a nenhum campo ideológico. “O centrão é meio um nada, uma espécie de plasma da política brasileira.”

Lula também tem sido cobrado pela oposição por ter recebido Vorcaro fora da agenda no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024. O ex-banqueiro foi levado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuou como consultor para o Master.

O Datafolha mostra que 34 % da população brasileira acredita que a maioria dos políticos envolvidos com o escândalo é de esquerda. Outros 27% dizem que a maioria é de direita, e 10%, de centro. Há ainda 13% que respondem “todos”.

A percepção é fortemente dividida pela preferência eleitoral: entre quem vota em Flávio Bolsonaro, 58% acham que os envolvidos são majoritariamente de esquerda, ante 9% que apontam a direita. O padrão se inverte entre eleitores de Lula, dos quais 48% apontam a direita como majoritária entre os envolvidos, ante 17% que apontam a esquerda.

Jorge Chaloub (UFRJ) diz que Lula disputou a maior parte das eleições presidenciais desde a redemocratização e que foi submetido por muito tempo, desde o mensalão, a acusações de corrupção. “O discurso que vincula Lula à corrupção é muito presente. Quando há menção a alguém próximo, há uma propensão a mobilizar essa memória”, afirma.

O cientista político Bruno Bolognesi, coordenador do Laboratório de Partidos e Sistemas na UFPR (Universidade Federal do Paraná), diz que outra explicação para o caso Master ter colado mais na esquerda é a exposição que sempre envolve aquele que ocupa a Presidência. “Tudo é culpa do governo. Corrupção é culpa do governo, aumenta luz no estado é culpa do governo. Quem está no governo vira um ímã de tudo o que é bom e que é ruim.”

Chaloub lembra ainda que o tema da corrupção é mais estratégico para quem está na oposição. “Tem coisas que são difíceis de se mobilizar estando no governo. A corrupção é um discurso classicamente oposicionista, que vai apontar tudo o que está errado”, diz.

A proximidade do governo federal com Moraes, principal figura à frente do inquérito que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe em 2022, também contribui para que o caso Master fique associado à esquerda, afirmam os analistas.

O ministro mantinha conversas suspeitas com Vorcaro e editou o contrato de cerca de R$ 130 milhões que o escritório de advocacia de sua mulher firmou com o ex-banqueiro, como revelou o jornal O Estado de S. Paulo.

Professor de ciência política na Universidade Federal de Pernambuco e colunista da Folha, Marcus André Melo diz que os dois ministros citados em meio ao caso Master, Moraes e Dias Toffoli, são associados ao PT.

“Um era advogado do PT, assistente do José Dirceu. O outro, Alexandre de Moraes, simbolicamente é o algoz dos Bolsonaros. É natural que seja associado ao governo. Além do mais, já se deu conta de que ele intermediou, em sua residência, um encontro entre Lula e o presidente do Senado. Isso também contribui”, afirma.

Melo diz ainda que o escândalo paralelo do INSS, “de altíssima voltagem”, pode contribuir para um efeito subliminar que leva o eleitorado a entender que o governo Lula está marcado por irregularidades. “Acho que o Master serve de biombo para o escândalo envolvendo Lulinha [filho do presidente]. Há um efeito de deslocamento na agenda pública”, afirma.

Após as últimas revelações que reforçaram a proximidade entre Moraes e Vorcaro, a campanha de Lula, assim como a militância petista, demorou para consolidar um discurso e reagir.

“Teve um ‘delay’ gigante porque Lula não quer comprar briga, quer fazer aliança. Sabe que [se eleito] vai ter que lidar com a bancada Master no Congresso e com o Supremo”, diz Celso Rocha de Barros.

Schüler diz que, para tentar reverter o desgaste, a campanha de Lula aposta em mudar o assunto com uma série de ações: o aumento do Bolsa Família, a proibição das bets e a circulação da notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida. “É uma operação clássica em comunicação política. Toda essa sequência, na minha visão, é parte da estratégia da campanha de criar fatos que se sobreponham. Foi uma operação bem-sucedida.”

Segundo pesquisa Quaest de 14 de setembro, a corrupção é o segundo tema mais importante para o eleitorado, atrás apenas da violência.