A Nasa divulgou novos detalhes, nesta sexta-feira (23), sobre uma corrida frenética para deixar prontos dois módulos de pouso lunar — construídos pelas empresas concorrentes Blue Origin e SpaceX — e o próprio foguete e nave espacial da agência para uma missão de teste crucial no próximo ano.
“Não vamos nos iludir acreditando que mais tempo, mais dinheiro e voar menos vai de alguma forma tornar nosso trabalho mais seguro ou mais realizável”, disse o chefe da Nasa, Jared Isaacman, em uma coletiva de imprensa, reafirmando o compromisso da agência de lançar uma missão de teste em órbita baixa no próximo ano, antes de um pouso lunar tripulado em 2028.
A Blue Origin e a SpaceX têm, cada uma, contratos de vários bilhões de dólares com a agência espacial americana para desenvolver veículos capazes de transportar astronautas da nave Orion da Nasa até a superfície lunar.
“Todo fornecedor e parceiro deve entender que quando um cronograma é descumprido, o pessoal da Nasa estará batendo à porta, e não para observar, não para escrever um relatório ou convocar um comitê, mas para arregaçar as mangas e resolver os problemas”, disse Isaacman.
Em fevereiro, Isaacman, então recém nomeado administrador da Nasa, sacudiu o roteiro da agência para um pouso na Lua ao adicionar uma missão de teste em 2027. Chamada de Artemis III, essa missão faria com que veículos tanto da Blue Origin quanto da SpaceX praticassem o acoplamento com a Orion em órbita baixa da Terra, ou seja, a apenas algumas centenas de milhas acima do nosso planeta — muito mais perto de casa do que a Lua, que fica a 384.400 quilômetros de distância.
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Duas empresas, dois módulos de pouso de teste
A missão de teste, com duração estimada de 14 dias, envolverá o lançamento de três foguetes gigantescos e incluirá o acoplamento e desacoplamento da nave tripulada Orion múltiplas vezes com veículos experimentais.
É “provavelmente a campanha de lançamento mais complicada já realizada”, disse Jeremy Parsons, gerente do Programa Artemis da Nasa.
A Artemis III foi concebida para ajudar a avaliar qual módulo de pouso a Nasa poderá usar na Artemis IV, que está prevista para marcar a primeira vez que astronautas pousam na superfície da Lua desde que o programa Apollo da agência foi encerrado em 1972.
A Blue Origin e a SpaceX estão desenvolvendo veículos radicalmente diferentes. A SpaceX, que foi a primeira a fechar um contrato de pouso lunar em 2021, pretende usar seu gigantesco veículo de lançamento Starship — que está em desenvolvimento, mas recentemente concluiu seu primeiro voo de teste orbital.
O Starship é um sistema de lançamento em duas partes que inclui o propulsor de foguete Super Heavy e a espaçonave Starship superior, um veículo de 171 pés de altura equipado com seis motores de foguete próprios. A espaçonave Starship serviria tanto como módulo de pouso lunar quanto como estágio superior do próprio foguete. O veículo é diferente de qualquer coisa já voada na história dos voos espaciais.
Já o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, se aproxima muito mais dos projetos clássicos de módulos de pouso lunar. O Blue Moon deve ser lançado dentro do compartimento de carga do foguete New Glenn, da Blue Origin e, com 52 pés de altura, lembra visualmente uma versão ampliada dos módulos de pouso da era Apollo da Nasa. O Blue Moon ainda não realizou um voo de teste.
A empresa pretendia lançar uma versão reduzida de carga, chamada Blue Moon Mark 1, este ano. Mas esses planos foram suspensos após um foguete New Glenn explodir em maio durante testes de rotina em solo e destruir o centro de lançamento da empresa na Flórida.
Tanto os veículos da Blue Origin quanto os da SpaceX têm uma longa série de testes e demonstrações tecnológicas pela frente — antes do Artemis III ou do Artemis IV. Nenhum dos veículos voou com tripulação a bordo ou acoplou a uma espaçonave transportando astronautas, como farão durante o Artemis III.
Na reunião de sexta-feira, a Nasa também reconheceu uma série de mudanças feitas em outros aspectos do programa Artemis, incluindo esforços para acelerar a produção e alterações de design no foguete Space Launch System e na espaçonave Orion da agência, além de aprovar uma versão simplificada e mais leve dos trajes espaciais para caminhadas na Lua, projetados pela empresa Axiom, sediada em Houston.
Os trajes simplificados têm como objetivo ser concluídos mais rapidamente para as primeiras missões de pouso na Lua, incluindo o Artemis IV, mas a Axiom continuará desenvolvendo a versão mais avançada para excursões lunares mais difíceis em fases posteriores do programa Artemis.
Quase de forma generalizada, a Nasa está “buscando simplificar e eliminar requisitos difíceis”, disse Parsons. Mas são os veículos de pouso lunar, acrescentou Parsons, que estão atualmente ditando o cronograma da Nasa.
Cronogramas apertados
De acordo com um cronograma recém-divulgado para o Programa Artemis, nos próximos meses, a SpaceX precisará concluir a construção do protótipo do Starship que voará na missão Artemis III e realizar diversas demonstrações para testar as pernas de pouso e a câmara de descompressão do veículo.
Enquanto isso, a empresa continuará sua campanha de voos de teste do Starship — incluindo a expansão das operações para dois novos plataformas de lançamento na Flórida e a realização do primeiro ensaio de transferência de combustível entre dois veículos Starship em órbita.
Essa transferência de propelente será necessária para levar o Starship até a Lua. A transferência de propelentes criogênicos super-resfriados entre dois veículos em órbita terrestre nunca foi realizada antes. A primeira demonstração da SpaceX está prevista para o início de 2027.
Para um pouso na Lua, a SpaceX precisará lançar múltiplos voos de reabastecimento. Anteriormente, especialistas estimavam que o número poderia ser entre 10 e 40. O CEO Elon Musk afirmou nas redes sociais nesta semana, no entanto, que um pouso na Lua exigiria de seis a oito lançamentos.
Os desafios da Blue Origin
Autoridades da Nasa confirmaram a estimativa de Musk na sexta-feira, mas observaram que um número definitivo provavelmente não poderá ser conhecido antes que os testes de transferência de propelente sejam concluídos.
O Blue Moon Mark 2 da Blue Origin também exigirá alguns preparativos complexos na órbita baixa da Terra antes de seguir para a Lua. A Nasa afirmou na sexta-feira que o módulo de pouso precisaria acoplar-se a pelo menos três estágios de propulsão.
A empresa também tem uma longa lista de tarefas. A Blue Origin precisa colocar seu New Glenn em operação novamente, o que poderá ocorrer até o final do ano, e realizar o voo de teste do Blue Moon Mark 1, já atrasado, no início do próximo ano.
O módulo de pouso Blue Moon Mark 2 utilizado na Artemis III também precisará ser equipado com sistemas de suporte de vida. A tripulação de quatro astronautas que estará a bordo da Orion durante a missão deverá embarcar no veículo Mark 2 enquanto este estiver acoplado à espaçonave.
A Nasa não espera fazer o mesmo com o Starship. Citando a experiência anterior da SpaceX com o voo de veículos Dragon tripulados, a agência afirmou acreditar que pode avaliar adequadamente os sistemas de suporte de vida da empresa fora da missão Artemis III.
Após a Artemis III, tanto a Blue Moon Mark 2 quanto a Starship deverão realizar viagens não tripuladas à Lua para praticar pousos.
A Nasa ainda não determinou qual dos dois veículos será utilizado em sua missão Artemis IV, após ter retirado seu compromisso com a SpaceX no ano passado e prometido usar o veículo que estivesse pronto primeiro. A agência citou o desejo de garantir o cronograma de suas missões em meio a uma corrida com a China.
A Artemis IV está atualmente prevista para o início de 2028, com um segundo pouso de astronautas, a Artemis V, ocorrendo mais tarde naquele ano. Espera-se amplamente que esse cronograma seja alterado.
A China trabalha há anos para pousar seus taikonautas na superfície lunar pela primeira vez até 2030. Especialistas acreditam que o país muito provavelmente cumprirá ou superará esse prazo.
