Câmara Árabe: “atuar em mercados muçulmanos é inevitável”
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Recentemente, os Emirados Árabes Unidos decidiram expandir suas relações com o Brasil e anunciaram o aumento das exportações de rações pet brasileiras. Atualmente, o mercado brasileiro é o sexto maior fornecedor de rações para os Emirados Árabes Unidos, atrás de Tailândia, Reino Unido, França, Arábia Saudita e Holanda, com particular crescimento entre 2024 e 2025. As vendas totalizaram 4.125 toneladas e a projeção para este ano é de um aumento de 13,48%. 

Esse movimento sinaliza novas oportunidades para empresas brasileiras, que têm a chance de ampliar mercados para seus alimentos úmidos, snacks e suplementos. Para entender como o Brasil pode abraçar essa tendência, o Panorama Pet&Vet conversou com exclusividade com Mohamad Mourad, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Os Emirados Árabes Unidos já vêm ampliando as compras de rações brasileiras e agora avançam na abertura de mercado. Na avaliação da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, quais são os principais impactos dessa decisão para a indústria brasileira de alimentos para pets e quais oportunidades podem surgir no curto e médio prazo?


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Os Emirados Árabes Unidos ocupam a 18ª posição entre os mercados de destino das rações brasileiras, com exportações de US$ 5,69 milhões, equivalentes a aproximadamente 4,752 mil toneladas, em 2025, resultado que, aliás, representou um avanço de 12,86% na receita em relação ao ano anterior. É importante destacar que, desse total, a maior parte, US$ 4,920 milhões, refere-se a rações para consumo de pets, categoria em que as receitas cresceram 5,80% em relação ao ano anterior. Espaço para crescer na categoria de rações certamente há. Alguns dos principais fabricantes vêm ampliando seus portfólios para além das rações, incorporando categorias como alimentos úmidos, snacks, suplementos e alimentos funcionais. Todos esses produtos encontram demanda nos países árabes do Oriente Médio.

De que forma esse processo poderia ser acelerado?

Ainda é necessário fazer um trabalho de promoção específico das marcas brasileiras na região, no qual, como câmara de comércio, podemos ajudar. Nossa instituição, há pelo menos 70 anos, vem se esmerando no trabalho de conectar empresas árabes e brasileiras. Temos serviços de consultoria de negócios que podem ajudar empresas a identificar os produtos mais aderentes ao consumidor, navegar por particularidades do marketing e do ambiente regulatório, identificar importadores e varejistas locais que podem vir a ser compradores ou parceiros de negócios, segundo o tipo de internacionalização almejada pela empresa.

Atualmente, o Brasil é o sexto maior fornecedor de rações para os Emirados Árabes Unidos, atrás de países como Tailândia, Reino Unido, França, Arábia Saudita e Holanda. Quais fatores explicam essa posição e o que os fabricantes brasileiros precisam fazer para ganhar participação diante desses concorrentes?

A ração animal ainda é um produto com participação relativamente pequena neste comércio. Mas entendemos ter muito potencial. Para ganhar destaque, os exportadores brasileiros têm de se empenhar em compreender o mundo árabe e suas particularidades. O importador árabe, por exemplo, quer um parceiro confiável. Ele evita negociações spot, ou seja, de oportunidade. Dedica tempo para conhecer seu interlocutor. Em vários casos, visita o país do candidato a fornecedor para verificar suas instalações e a cadeia produtiva. E, só então, com a confiança construída, é que começam as transações comerciais. Sabemos que o islamismo veda, por exemplo, o consumo de derivados suínos por pessoas, que, inclusive, evitam manusear produtos que os tenham em sua composição, ainda que não vá consumi-los diretamente. Então é importante que o exportador brasileiro esteja atento a estas e outras necessidades.

Além das rações tradicionais, o mercado pet vem incorporando alimentos úmidos, funcionais, snacks e suplementos. Quais dessas categorias apresentam maior potencial nos Emirados Árabes Unidos e que adaptações de portfólio, formulação ou posicionamento podem ser necessárias para atender às demandas dos consumidores locais?

Creio que o maior desafio seja estabelecer um elo com o consumidor, dentro de suas exigências, expectativas e particularidades. No ano passado, apoiamos uma fabricante de ração do Paraná que decidiu certificar seus produtos como halal, o selo que atesta que um dado produto, geralmente destinado ao consumo humano, foi produzido seguindo os preceitos do islã. Embora não seja obrigatória para rações. O produto passa a ser mais bem visto pelo consumidor. Seu animal de estimação, portanto, com a certificação, está tendo acesso a um alimento produzido com o mesmo rigor do alimento que ele próprio ingere. O outro motivo é que o produto certificado geralmente ganha espaços privilegiados no ponto de venda. Dessa forma, a empresa entendeu que poderia melhorar a visibilidade do seu produto no ponto de venda. É preciso entender que exportar para países muçulmanos é muito diferente.

Os Emirados Árabes Unidos funcionam como um importante hub comercial para outros mercados da região. Até que ponto uma estratégia de entrada no país pode servir de plataforma para que empresas brasileiras de pet food conquistem novos mercados no Oriente Médio e quais países deveriam estar no radar dos exportadores?

Os Emirados Árabes Unidos compram muitos produtos para fazer estoques locais reguladores e para enviá-los a outros países, principalmente a outras nações muçulmanas do Golfo, do Norte da África, da Ásia Central e do Sudeste Asiático. Os importadores emiráticos há muito tempo não veem o seu país como o único território de suas operações. Eles sabem que a rentabilidade está na escala, e a escala se conquista diversificando mercados. Então, o exportador brasileiro que deseja iniciar vendas no mundo árabe precisa ter em mente que, no médio prazo, se houver confiança construída com seus parceiros, se o produto for bom, adequado e competitivo, há chances concretas de ampliar a internacionalização para muitos mercados da região, especialmente se o seu produto conversar muito bem com o consumidor muçulmano.

A Câmara Árabe-Brasileira destaca a importância de aproximar fabricantes de rações das empresas de comércio exterior que já possuem relacionamento com distribuidores e varejistas locais. Como essa integração pode ser estruturada na prática e quais são os principais desafios para uma empresa brasileira que deseja iniciar ou ampliar suas exportações para a região?

De forma geral, quando a empresa nos procura com a ideia de exportar para países árabes, fazemos uma análise do projeto inicial, identificamos suas vulnerabilidades e fortalezas. Fazemos também uma análise de potencial, considerando o portfólio e as características do mercado. Depois de analisar o portfólio, identificamos que tipo de internacionalização é desejado. A empresa quer um distribuidor local? Quer vender diretamente a uma rede de varejo? Tem planos de estabelecer uma filial com equipe própria? Analisamos questões regulatórias e o posicionamento do produto no mercado. Geralmente, aqui é necessário fazer readequações na rotulagem e na composição e, em muitos casos, adotar a certificação halal. Depois passamos à formatação do plano de internacionalização, que pode incluir rodadas de negócios em eventos que promovemos diretamente, participação em feiras e reuniões estruturadas com parceiros previamente identificados.

Considerando o crescimento das exportações brasileiras de rações para pets, quais estratégias a indústria brasileira deveria priorizar agora para transformar a abertura de mercado em negócios recorrentes e ampliar a presença de marcas nacionais no Oriente Médio?

Eu entendo que a grande questão é a persistência. O mundo árabe é para aqueles que entendem o valor da persistência. A confiança é o valor que abre portas nesse mundo e mantém parceiros de negócios juntos por décadas, mirando sempre novas oportunidades. Mas nada disso será viabilizado sem a determinação do empreendedor em participar desse mercado. Lembro que hoje o mundo tem 1,9 bilhão de muçulmanos, ou seja, uma em cada quatro pessoas no planeta professa a religião islâmica. Em 2050, uma em cada três pessoas na Terra terá fé islâmica. Isso quer dizer que atuar em mercados muçulmanos é inevitável para qualquer empresa que leve a sério sua própria internacionalização. Quem fizer isso mais cedo terá mais espaço e melhores resultados.