Estou na Europa, meu paixão, mas o bafafá que está atravessando o Adriático é brasílio: a Mundo bateu o martelo e Quem Governanta Cuida é a escolhida para substituir Três Graças nas nove, com aquele cheirinho de vingança que faz o brasílio desligar o ar-condicionado e vincular o Twitter. Imagina o cenário: você fisioterapeuta, boletos em real, de repente cai no pescoço de um milionário possuinte de rede de joalherias, interpretado por Antonio Fagundes, e o varão resolve que você é a única pessoa decente em volta dele. É a fantasia da classe média com crachá assinada por Walcyr Carrasco, em parceria com Claudia Souto e direção de Amora Mautner, ou seja, não é romance, é parque de diversões de plot twist.
A protagonista é Adriana, papel de Letícia Colin, que entra na história para cuidar da saúde do ricaço Arthur Brandão e acaba mexendo justamente onde a família mais sente dor: na partilha dos bens. O velho solitário, cansado de parente se pendurando no cofre, decide que vai oficializar o paixão e o testamento numa tacada só, pedindo a moça em matrimónio e deixando evidente que o quantia todo vai pra ela, do brinco à cobertura, passando por cada loja de joia com vitrine cafona. A notícia cai na mesa da família uma vez que prato de macarrão voando na rosto, porque ninguém tinha se prestes psicologicamente para perder a legado para a fisioterapeuta que entrou pela porta da frente, de jaleco e crachá.
Só que em romance de Walcyr, proclamação de legado é igual calmaria em Capri: dura cinco minutos. Na noite em que torna público que Adriana será sua herdeira, Arthur aparece morto e a sarau vira cena de série true delito, com taça quebrada, grito na escada e rosto de paisagem de quem está fazendo conta mental do patrimônio.
A família, que já não morria de amores pela futura senhora Brandão, encontra no sucumbido o invitação perfeito para transformar a mocinha em vilã de tribunal, empurrando tudo nas costas dela com a mesma facilidade com que empurrava o prato de canapés para dentro. Resultado: Adriana é condenada, perde o nubente, a liberdade e o pouco de reputação que tinha, enquanto os parentes assumem a mansão e a rede de joalherias uma vez que se tivessem ganhado tudo em promoção de Black Friday emocional.
Passam-se anos, e Adriana volta da prisão com mais frieza que prosecco esquecido no gelo, determinada a fazer justiça com a própria perceptibilidade e um salto muito cimo. Não é só “provar inocência”, é virar o jogo capítulo por capítulo, indo detrás de quem lucrou com a desgraça dela, desmontando a família que construiu fortaleza em cima da pena injusta, e entrando naquele território delicioso de mocinha que sorri com o olho, mas está calculando o próximo golpe no coração do inimigo. No meio desse caminho aparece Pedro, vivido por Chay Suede, rebento do jurisperito que ajudou a enterrar Adriana no processo, pronto para virar aquele romance complicado que faz a gente torcer com vergonha: ela apaixonada pelo herdeiro do varão que destruiu a vida dela, ele dividido entre laços de sangue e vontade de se redimir no amplexo.
O pacote vem recheado com elenco de peso, vilã com rosto de que dorme abraçada no processo da mocinha, núcleo rico que fede a privilégio e uma protagonista que sai da ergástulo sem terror de enfrentar cada um que carimbou o fado dela. A missão de Quem Governanta Cuida é clara: depois de mocinha ladra e anti-heroína confusa, a Mundo quer botar na sala de estar a catarse máxima da vingança muito servida, com recta a bordão, cena de prato voando, close na lágrima e discussão em grupo de WhatsApp da família inteira. Se der evidente, prepare-se: a legado mais disputada das nove não vai ser a do Arthur Brandão, vai ser o horário transcendente que essa romance deixa para a próxima.
