JÉSSICA MAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Calor intenso, muitas horas de trabalho, quilômetros caminhados entre as palestras e espaços de negociação. Na COP30, a conferência das Nações Unidas sobre mudança climática ocorrida em Belém (PA), não faltaram elementos para drenar as energias dos participantes.
Para restaurar as forças, milhares de pessoas recorreram ao Restaurante da Sociobio, que servia, dentro da Zona Azul, refeições completas feitas com ingredientes vindos da lavoura familiar lugar –um pouco inédito nas cúpulas climáticas.
Com uma estrutura similar à de um restaurante universitário, filas de brasileiros e estrangeiros se formavam todos os dias no bufê. Segundo estimativas da organização, foram servidas 4.000 refeições diárias, totalizando tapume de 52 milénio pratos fornecidos ao longo dos 13 dias de atividades da conferência.
Ao dispêndio de R$ 40, era verosímil manducar um prato feito, podendo repetir à vontade (exceto as proteínas), escoltado de suco e uma sobremesa.
“A receptividade foi incrível”, conta o zootecnista Luis Carrazza, secretário-executivo da cooperativa Mediano do Entupido, que, junto da Rede Bragantina, foi responsável pelo consórcio que executou o projeto. Ele explica que a concepção foi baseada em três conceitos: saudável, sustentável e solidário.
O espaço foi pensado para oferecer comida de qualidade aos voluntários e outros trabalhadores da COP30 e funcionou ao longo de cinco semanas -iniciando muito antes da chegada dos delegados internacionais, para aqueles que trabalharam na montagem das estruturas. A estimativa é de que foram servidas, ao todo, 80 milénio refeições.
“Atendemos um público mega diverso, de diferentes nações, culturas e classes sociais, e o retorno que tivemos foi muito positivo em relação ao cardápio, sabores e variedade de preparos que atendiam a todos os gostos”, diz Carrazza.
A operação do restaurante empregou diretamente 85 pessoas e mais de 50 organizações de agroecologia forneceram os produtos utilizados. Ao todo, foram compradas 100 toneladas de provisões, segundo Carrazza.
O nome, Restaurante da Sociobio, é referência à sociobioeconomia, um noção disputado entre diferentes linhas teóricas.
“Para nós, esse noção é sobre ter todo um conjunto de produção que valoriza a floresta em pé. E, ao valorizar a floresta em pé, valoriza aquelas pessoas que produzem dessa forma”, explica Kamyla Borges, coordenadora de projetos do Instituto Clima e Sociedade, que apoiou a iniciativa.
Ela afirma que a presença do espaço na COP reforça a mensagem de que escolhas diárias, uma vez que a sustento, têm um impacto direto no planeta.
“Por trás do que você coloca no seu prato todos os dias tem uma calabouço de agricultores e pessoas que estão transformando isso em comida”, diz Borges. “Queremos que restaurantes uma vez que esse sejam recorrentes em todos os cantos do país”.
Entre os pratos ofertados estavam ingredientes uma vez que pirarucu, cordeiro, búfalo produzido na ilhota do Marajó, suco de cupuaçu e rebuçado de umbu. “A variedade do cardápio refletia muito do que é a riqueza das culturas alimentares brasileiras”, afirma o antropólogo Maurício Alcântara.
Ele é cofundador do Instituto Regenera e um dos responsáveis pela iniciativa Na Mesa da COP30. O movimento articulou junto à presidência brasileira da COP30 o compromisso de que ao menos 30% dos provisões servidos em todos os espaços oficiais da COP (a Zona Azul, de chegada restrito, e a Zona Verdejante, ocasião ao público) viriam da lavoura familiar e seriam adquiridos por meio do Programa de Compra de Víveres.
A produtora rústico Maria Jeanira Pereira, presidente da associação Pará Orgânico e uma das fornecedoras dos provisões da COP, diz que espera que os restaurantes de Belém continuem comprando ao menos 30% dos seus ingredientes da lavoura familiar.
“Isso para fortalecer os pequenos agricultores, porque muitas vezes a gente tem um resultado e não tem um espaço de comercialização”, afirma a agricultora, que tem uma propriedade na comunidade Campo Limpo, em Santo Antônio do Tauá, no nordeste do estado.
Pereira conta, ainda, que o legado que ficou para si foi ter podido participar dos debates da cúpula climática trazendo soluções. “Acho que estamos contribuindo com essa transformação do nosso planeta, desse clima nosso”, diz ela.
Na média global, os sistemas alimentares respondem por tapume de 30% das emissões de gases de efeito estufa, considerando produção e transporte. No Brasil, porém, o índice chegou a 74% em 2024, segundo os dados do Seeg (Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa).
O oferecido é a soma das emissões diretas da agropecuária com as indiretas, resultantes do desmatamento, já que a mudança do uso da terreno é feita para conversão em pastagem ou lavoura.
“Nós temos um padrão de produção de commodities agrícolas que faz com que sejamos o quinto país que mais emite gases de efeito estufa do mundo”, diz Alcântara. “Isso acontece principalmente porque, uma produção monocultora degrada o solo, diminui a biodiversidade, reduz a variedade de produção cevar e leva a uma premência maior de fertilizantes e de insumos químicos”.
Do outro lado, explica ele, os pequenos produtores respondem por pelo menos 70% da variedade de provisões que chegam à mesa dos brasileiros. “Frutas, legumes, verduras, feijoeiro, mandioca… enfim, os principais itens são produzidos pela lavoura familiar”.
O antropólogo acrescenta, ainda, que dentro do guarda-chuva da lavoura familiar, estão sistemas ainda mais aliados ao clima, uma vez que os métodos de produção de povos tradicionais e a agroecologia.
“Por exemplo, a agrofloresta em que se procura, em vez de produzir uma só coisa em grande quantidade, menores quantidades de muitas coisas, tendo uma variedade maior”, diz ele. Nesse tipo de cultivo de consórcio, árvores mais altas são usadas para sombrear espécies que precisam de menos sol e diferentes provisões são cultivados lado a lado.
Assim, é verosímil produzir provisões enquanto a floresta é preservada –ou até mesmo fazendo a recuperação de paisagens degradadas.
