Amores, romantizar empreendedorismo no Brasil é esporte de risco. E quem resolveu descrever isso sem filtro foi Daniel Erthal, ator publicado por trabalhos na Mundo e por uma passagem marcante por Malhação. Na tentativa de reformar de vez o isopor de cerveja, ele investiu as economias em um bar no Rio de Janeiro. O sonho era simples. Ter um negócio próprio, porta oportunidade, identidade, firmeza. A veras veio com boleto.
Depois de infligir mais de R$ 100 milénio na reforma e montagem do espaço, Erthal se viu diante de uma matemática cruel. Mesmo com o bar funcionando, ele segue ganhando mais quantia uma vez que vendedor ambulante nas ruas e praias da cidade do que detrás do próprio balcão. E não é força de sentença. É conta no papel.
Desde o início, Daniel tratou o bar uma vez que um fruto. Desenhou envolvente, escolheu detalhes, insistiu em manter o espaço mesmo quando o movimento começou a minguar. O apego, ele admite, atrapalhou. Mormente no pior período provável. O inverno carioca, quando a praia esvazia, o fluxo some e o caixa sente.
O erro principal, segundo ele, foi obrigatório e irremissível. O ponto. “Não observei a quantidade de pessoas que passa na rua”, confessou. Em tradução livre. Bar sem fluxo não se paga. Enquanto isso, na passeio, o quantia gira. Na rua, ele ganha mais. Simples assim.
O endereço virou vilão. Aluguel cimeira, conta de luz, despesas fixas, impostos, equipe, taxas. Tudo isso exige movimento uniforme para fechar a conta. Um tanto que nunca se consolidou. No término do mês, o faturamento do bar mal cobre os custos. Já a venda de cerveja na rua, mormente em datas de grande fluxo, gera lucro rápido, direto e palpável.
Em eventos uma vez que o Réveillon de Copacabana, o carrinho de bebidas disputa espaço com centenas de ambulantes, mas ainda assim fatura em poucos dias o que o bar não consegue em um mês inteiro. Na orla lotada, o consumidor compra por impulso, sem terçar porta, sem sentar, sem pensar muito. No bar, cada noite vazia pesa uma vez que sentença.
A verificação escancara um dilema que muitos pequenos empreendedores conhecem muito. CNPJ não garante firmeza. A informalidade, apesar dos riscos, muitas vezes paga melhor. Na rua, Daniel depende de clima, fiscalização e segurança. Já teve carrinho furtado, inclusive. Mas também tem liberdade. Ajusta estoque, horário e estratégia em tempo real.
No bar, está recluso a contratos, a um ponto fixo e a despesas que vencem todo mês, faça sol ou tempestade.
Hoje, Daniel fala em reavaliar o negócio até abril. Não descarta mudar de endereço, estuda bairros uma vez que Botafogo e Copacabana, onde o fluxo é naturalmente maior. Mas deixou o romantismo de lado. Só insiste se fizer sentido no papel. Longo prazo virou luxo. A vida, segundo ele, é ajuste uniforme. Igual ao ambulante que monta e desmonta o ponto todo dia.
Há também o incômodo simbólico. Daniel diz sentir que passou a ser visto somente uma vez que vendedor de cerveja, não mais uma vez que ator. O contraste entre o rótulo de ex-galã da Mundo e o trabalho na rua escancara um preconceito idoso com ocupações informais. Uma vez que se vender cerveja fosse fracasso, quando na prática sustenta milhares de famílias no Rio.
Ao se expor, ele humaniza esse universo. Mostra que o isopor não é queda. É estratégia de sobrevivência em um país hostil aos pequenos negócios.
O libido de voltar à televisão segue vivo. Daniel diz que adoraria fazer testes para novelas, séries, qualquer projeto que o reconecte à dramaturgia. Enquanto isso, usa a própria história, as redes sociais, o bar e a rua para se manter visível e remunerar as contas.
Entre o glamour distante dos estúdios e o suor quotidiano da passeio, Daniel Erthal encarna um novo tipo de ex-galã. Menos pedestal, mais veras. E uma prelecção clara. No Brasil, nem sempre o balcão é mais seguro que a rua.
